18 jan
Viseu

David Duarte

OPINIÃO

Fragmentos de um Diário

09 de janeiro de 2021, 08:00

CLIPS ÁUDIO

26 de Dezembro de 1974

Ontem, o meu primo Z. A. apareceu pelo meio-dia. À tarde dei sozinho um passeio triste pelo adro de Lobão. Depois, com o meu primo e outros conhecidos, fomos à adega de um deles, onde esvaziámos duas garrafas de vinho branco, trincámos umas fatias de bolo-rei e umas castanhas. Por momentos, à saída da adega, caiu uma chuva miudinha.

De noite, após o jantar, o Z. A. saiu. A minha mãe reteve-me de o acompanhar.  Assim passei este Natal de 74: solitário no convívio, triste na alegria. E um pensamento distante a envolver-me. Uma saudade da Fátima.

 

27 de Dezembro de 1974

 

         Fomos a Coimbra. O meu primo acompanhou-nos na viagem de camioneta. Nós íamos ao encontro de umas primas de minha mãe; ele da namorada. Tratava-se da possibilidade de emprego para o meu pai. Dormi numa casa do outro lado do rio com uma vista extraordinária para a cidade. Se de noite admirei Coimbra, de manhã a admiração reforçou-se.

 

29 de Dezembro de 1974

 

         Regressámos a Santa Ovaia de Baixo. Pela tardinha, quando o sol pintava de tons de despedida o horizonte aldeão, viemos para Lobão, eu e a minha mãe, através dos campos e pinhais que separam ambas as aldeias.

         Ela apareceu no adro com umas amigas. Aproximei-me. Quando já de noite seguiu com as amigas rua abaixo até um campo de macieiras, perto da escola feminina, perguntei-lhe se me acompanhava. Ela encolheu os ombros, mas afastou-se das amigas e parou ao meu lado. Depois fomos andando rua fora, sem dizer palavra. Ela fechada não sei em que pensamentos, eu, a remorder-me de escrúpulos por me lembrar da Fátima. Mas foi ela que tomou a iniciativa de me dar uma das mãos. Aquele calorzinho tão humano fragilizou-me a ética. Encostei-me a um muro cosido de musgo, ela a mim e, sob aquele céu polvilhado de pontinhos brilhantes, fizemos deste quadro bucólico o cenário de um encontro pautado de silêncios, breves frases,  alguns beijos e empatia. Gostei daquele calorzinho das mãos dadas. E nada mais pedimos um ao outro. Como se na imensidão do universo o encontro breve nos bastasse.                                  

 

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