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por
Filipe André
Começarei este artigo com uma manifestação de interesse. Sou beirão, sou do interior profundo, sou da província; sou até um saloio ou, se quiserem, um simplório.
Mas também me considero do clube original dos “arregaça mangas”. Trata-se de um clube a que muitos pertencemos — principalmente um clube de membros que outra escolha não teve senão esta. O clube original dos “arregaça mangas”.
Só não quero ser totó e muito menos encher chouriços demagogicamente para uma posteridade de faz-de-conta, que é como quem diz: enganar e ludibriar. No fundo, ser totó e esperar que o outro seja tão totó como eu.
Posto isto, avancemos em função do título deste artigo.
Lisboa, a nossa belíssima capital, uma cidade que orgulha a nação, atrativa e cheia de oportunidades, possuía, para além de todos estes predicados, um outro, quiçá o mais importante de todos: o facto de ser a mãe, a sede da democracia. Onde os maiores símbolos da liberdade e da identidade deveriam viver de viva e franca voz.
Digo deveriam, pois entendo que sucede exatamente o contrário. Jazem num desconsolo insípido.
Lisboa está refém de governos, de gente que a aprisiona, que faz dela prisioneira de políticas que a isolam cada vez mais do pequeno e sobejo país.
Atentemos.
São as tempestades e a desgraça lá para o “centro do país”, a uns meros quilómetros de distância; ou os incêndios lá para o “interior do país”, a uma deslocação equivalente à viagem da Margem Sul para o centro; ou ainda o “vou passar o fim de semana à província com os miúdos para deixarem de confundir ovelhas com caniches”.
Lisboa da política vive de show-off, dos excêntricos que se pavoneiam no suicídio nacional da comunicação social. São uma nova estirpe humana: a dos chouriçomakers. Enchem tanto, mas tanto chouriço, que penso serem sérios candidatos ao êxodo momentâneo para a tal “província” nas tradicionais matanças do porco.
Só que não. Os chouriços desta gente nem tripa têm para poder ser cheia. É um vazio de nada que já alimenta Lisboa — e espero que não tenha o mesmo efeito no resto do país.
Tenho pena que, em especial, as televisões apenas deem palco aos enche-chouriços da Lisboaíte. Deixo um apelo à comunicação social da capital: experimentem os “enche-chouriços” aqui do meu interior. Enchemos o chouriço de outra forma — cheio de conteúdo e sabor.
Orgulhamo-nos da nossa capital, do nosso país.
Levamos a vida a sério, sem festins televisivos de enganar papalvos.
Somos guerreiros. Lutamos todos os dias para termos migalhas.
Migalhas na educação, com percentagens de vagas no ensino superior irrisórias, em contrapartida com o abandono do interior.
Migalhas na saúde, com serviços cada vez mais afastados e redundantes.
Migalhas nos apoios do Estado ao incentivo à habitação.
Migalhas do Estado no apoio à agricultura, à pecuária e por aí fora.
E, mesmo assim, continuamos a encher chouriços à séria, arregaçando mangas, longe do ridículo mediatismo e, acima de tudo, não sendo totós.
Somos do País real, do país que vive do afinco, do querer fazer.
O País dos resilientes que, apesar de cidadãos de segunda, não são totós.
Somos do País daqueles que morrem de pé, que se entreajudam em situações de desgraça; daqueles que reconstroem e avançam em função da sua autenticidade, longe dos que apenas aparentam.
Somos valor autêntico. Quando uns exibem, nós estamos já molhados e cheios de lama até ao pescoço. Se Lisboa precisar, lá estaremos também — porque Lisboa é de todos igualmente e o País, Portugal, é muito maior do que Lisboa; aliás, até o Alentejo, citando a letra da conhecida canção.
O mais engraçado é que quem vive isolado, numa bolha e sem noção da realidade, não somos nós.
por
Marta Costa
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Filipe André
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José Carreira
por
Joaquim Alexandre Rodrigues