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O Mundial que nos deixou perguntas

 Três histórias bem-dispostas
07.07.26
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 O Mundial que nos deixou perguntas

por
Vitor Santos

Portugal terminou a sua participação no Mundial de 2026 muito abaixo das expetativas. É uma desilusão. Não apenas pelo resultado, mas sobretudo pela forma como a equipa nunca conseguiu transmitir a sensação de estar preparada para competir ao mais alto nível.

No espaço público, a reação foi a habitual. Multiplicaram-se análises, críticas, culpados e soluções fáceis. Uns responsabilizaram o treinador. Outros os jogadores. Outros ainda recuperaram a eterna discussão clubística que, em Portugal, parece contaminar qualquer conversa sobre a Seleção Nacional.

Talvez seja precisamente aí que comece um dos nossos problemas. Continuamos a discutir futebol a partir das camisolas dos clubes e não daquilo que verdadeiramente acontece dentro das quatro linhas. Falta-nos cultura desportiva para separar a paixão da análise.

Pessoalmente, nunca escondi que nunca fui um entusiasta do selecionador nacional. Mas reduzir tudo a uma questão de simpatia ou antipatia seria demasiado simplista.

O que me preocupa é outra coisa. Durante toda a competição, Portugal raramente pareceu uma equipa. E esse foi, para mim, o verdadeiro problema.

Portugal não perdeu por falta de talento. Perdeu porque nunca conseguiu transformar talento numa equipa. E isso conduz-nos à pergunta essencial: afinal, o que foi preparado antes do Mundial?

As grandes competições não são o lugar para construir uma equipa. São o momento de colocar em prática uma equipa que já deveria estar construída. Quando os jogadores parecem inseguros, quando as dinâmicas não aparecem e quando o rendimento coletivo fica muito abaixo da qualidade individual existente, é inevitável questionar o processo.

Portugal possui uma geração de enorme talento. Basta olhar para os clubes onde jogam muitos dos seus atletas. No entanto, durante este Mundial, poucos conseguiram aproximar-se do nível que habitualmente demonstram.

Na minha opinião, apenas Diogo Costa terminou a competição claramente valorizado. Nuno Mendes mostrou, em vários momentos, porque é considerado um dos melhores laterais do mundo. João Félix também revelou a sua enorme qualidade. Mas, no geral, ficou a sensação de que quase todos renderam abaixo das suas capacidades.

E isso dificilmente pode ser explicado apenas pelo momento de forma individual.

Também a comunicação merece reflexão.

Vivemos uma época em que, por vezes, se fala mais das emoções do que das decisões. A gratidão, o orgulho ou a entrega fazem parte do desporto e têm o seu lugar. Mas quem lidera uma equipa deve também ser capaz de explicar processos, opções e responsabilidades. A comunicação é, ela própria, uma competência de liderança.

Outro tema que inevitavelmente regressou foi Cristiano Ronaldo.

Cada pessoa terá a sua opinião sobre a sua utilização ou sobre o papel que deve desempenhar nesta fase da carreira. Essa discussão é legítima.

Aquilo que me parece menos discutível é aquilo que representa enquanto atleta de alto rendimento. Independentemente da idade, poucos atletas na história do desporto demonstraram tamanha disciplina, capacidade de trabalho, exigência e compromisso diário. O alto rendimento nunca vive apenas do talento. Vive da consistência, da preparação, da disciplina e da capacidade de se reinventar todos os dias. A gestão do seu tempo de jogo é uma responsabilidade do treinador, não do atleta.

Mas este artigo não pretende discutir nomes. Para isso existe espaço mais do que suficiente no ruído mediático e nas redes sociais. Pretende discutir princípios.

No desporto, ninguém deveria jogar pelo passado, pelo estatuto, pelo clube que representa ou por qualquer outro motivo que não seja o mérito. A meritocracia exige que todos tenham de justificar diariamente o seu lugar.

Infelizmente, essa continua a ser uma dificuldade não apenas do futebol português, mas também de muitas organizações, empresas e instituições. Valorizamos demasiadas vezes o nome e esquecemo-nos de avaliar o desempenho.

No fim, Portugal não perdeu apenas um jogo. Sai deste Mundial com uma oportunidade de reflexão. Porque o talento continua a existir. O potencial também.

A questão é saber se teremos a humildade para rever processos, assumir responsabilidades e voltar a construir uma verdadeira equipa.

No desporto, como na vida, os nomes podem decidir um jogo. Mas só as equipas sustentam um projeto vencedor.

Talvez seja essa a maior pergunta que este Mundial nos deixou: queremos continuar a discutir nomes ou começar, finalmente, a discutir processos?

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