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Marta Costa
O Interior surge recorrentemente associado a problemas demográficos e a fragilidades estruturais. Menos discutida é, porém, uma característica central do modelo económico territorial português: a distância persistente entre a atividade produtiva existente em muitos territórios fora das áreas metropolitanas e a capacidade desses territórios para transformar essa atividade em rendimento, investimento e oportunidades locais duradouras.
Setores como a agricultura, a floresta, a indústria transformadora, a produção de energia e vários serviços essenciais têm, em muitas regiões do Interior, a sua base operacional. No entanto, essa capacidade produtiva nem sempre se traduz, de forma consistente, em rendimento local suficiente para sustentar dinâmicas de crescimento económico, fixação de população e qualificação do emprego.
O problema não reside, portanto, na ausência de atividade económica, mas na forma como o valor gerado é distribuído ao longo das cadeias económicas.
Em muitos casos, o Interior participa na produção. No entanto, depende largamente de rendimentos cuja origem se situa fora do próprio território
Esses rendimentos resultam maioritariamente, quer de decisões empresariais tomadas noutros centros, quer de transferências com fraca capacidade de induzir investimento local.
Este padrão está associado a um modelo económico fortemente centralizado, no qual os principais centros de decisão, investimento e acumulação de capital se concentram fora das regiões produtoras. O Interior é integrado como espaço de produção, mas participa menos nas fases de comando estratégico, inovação e apropriação do excedente económico.
O caso de Viseu ilustra bem esta realidade. O concelho apresenta indicadores económicos e sociais acima da média do Interior e é frequentemente referido como exemplo de equilíbrio urbano e qualidade de vida. Ainda assim, enfrenta constrangimentos típicos do modelo territorial nacional.
Uma parte significativa da atividade económica local assenta em empresas cujo centro de decisão se localiza fora da região, em emprego público ou em rendimentos transferidos. Apesar da existência de criação de valor, a capacidade de reter excedente económico e de o reinvestir localmente permanece limitada, condicionando o crescimento a médio e longo prazo.
Este enquadramento ajuda a explicar por que razão, mesmo em territórios considerados dinâmicos, persistem dificuldades na atração e retenção de população jovem e qualificada. Não se trata apenas de uma questão demográfica ou de escala, mas de estrutura económica e institucional.
O debate sobre o futuro do Interior beneficiaria, por isso, de uma mudança de foco. Mais do que multiplicar medidas avulsas ou incentivos temporários, importa discutir mecanismos que reforcem a capacidade dos territórios para decidir, captar e reinvestir a riqueza que produzem.
Enquanto o Interior continuar a desempenhar um papel relevante na atividade produtiva nacional, mas um papel secundário na definição das opções económicas, esta assimetria tenderá a manter-se. O território continuará a ser essencial para o país, mas com dificuldades em garantir sustentabilidade económica e social.
Esse é, hoje, um dos desafios centrais do Interior — e também de Viseu.
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Marta Costa
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Filipe André
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José Carreira
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Joaquim Alexandre Rodrigues