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Saúde mental: “Os afetos curam”, assegura psicóloga

A psicóloga Adriana Alves esclarece como é que as experiências vividas na infância podem impactar os acontecimentos da vida adulta.  Estabelecer laços afetivos, a capacidade de empatia, os sentimentos de conforto e segurança são algumas das prioridades para a estabilidade mental. Segundo a psicóloga, identificar sinais de alerta pode fazer toda a diferença na vida das crianças

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O conceito de saúde é mais abrangente que a simples ausência de doença. É o completo estado de bem-estar tanto físico, como mental e social. Sendo a saúde mental fundamental para o bem-estar de qualquer pessoa, o Jornal do Centro conversou com a psicóloga Adriana Alves para entender a importância que as experiências, positivas ou negativas, vão ter no desenvolvimento e crescimento das crianças. 

Relativamente às experiências vividas na primeira infância, “já várias evidências têm demonstrado que, a longo prazo, têm um grande impacto nos acontecimentos na nossa vida adulta. Podemos falar num melhor desempenho escolar e profissional, menos problemas de saúde, menor envolvimento em criminalidade e outros fenómenos sociais”, explica Adriana Alves.

Segundo a psicóloga, os traumas de infância afetam o cérebro e o corpo, e este desenvolvimento social e emocional está relacionado com a capacidade de interação, de estabelecer laços afetivos, comunicar, partilhar e receber. “Expressar as nossas emoções, reconhecer as emoções dos outros. A nossa capacidade de empatia, de nos colocarmos no lugar do outro, de responder de forma adequada àquilo que são as nossas necessidades”, constata.

O impacto dos primeiros anos de vida

Os primeiros anos de vida são um período crucial. Nesta fase, as crianças estão particularmente suscetíveis a influências externas e essas experiências vão ter impacto no seu crescimento global, independentemente de serem positivas ou negativas. Adriana Alves aponta que “as relações são essenciais desde o primeiro dia de vida das crianças. Os bebés nascem e aprendem sobre si, sobre o mundo que os rodeia, e é pela forma como são tratados e como se relacionam com eles que isso vai permitir que aprendam a relacionar-se mais tarde com os outros”. 

A nível cognitivo muito há a dizer, “não só ao nível da aquisição de linguagem, formação de memórias, capacidade de concentração da criança”. Mas a psicóloga destaca a importância dos afetos. “A melhor forma de promovermos estas competências nas crianças é através da modelagem e das relações familiares, dos afetos. Os afetos curam e eu acredito efetivamente nisso. São eles que dão às crianças este sentimento de conforto, segurança, confiança, e que lhes vão permitir serem adultos mais saudáveis”.

A prevenção enquanto responsabilidade coletiva

Adriana Alves apresenta um conjunto de estratégias para a construção de uma vida “tanto quanto possível, plena e saudável”. Essas estratégias passam pela atenção, tolerância e empatia, escuta ativa, apoio especializado, terapias cognitivo-comportamentais, autoconhecimento e, acima de tudo, afetos e autocuidado.

O autocuidado é a medida de prevenção prioritária para esta profissional de saúde mental. “Poderíamos falar de inúmeras coisas a nível, não só da alimentação, padrões de sono, qualidade das relações sociais, familiares, sermos tolerantes nas relações que estabelecemos, a nossa capacidade de empatia. O autocuidado, para mim, é prioritário”, explica. 

A psicóloga ressalta que as estratégias de prevenção também são da responsabilidade de quem nos rodeia. A tolerância à frustração é outra medida de prevenção apontada por Adriana Alves. “Perceber que todos nós temos uma história e todos nós temos dias que não são tão bons. Às vezes projetamos isso para os outros até de forma inconsciente”.

Para ajudar os indivíduos a processar estas experiências traumáticas e aprender a lidar com as consequências das mesmas, é fundamental o apoio de grupos especializados, como familiares e amigos, e procurar ajuda terapêutica. “A terapia focada no trauma, eu creio que é altamente eficaz na ajuda a indivíduos por forma a eles conseguirem processar estas experiências traumáticas e aprenderem aquilo que são as consequências dessas experiências. Além disso, é fundamental também, no meu ponto de vista, o apoio de grupos especializados compreensivos e empáticos”, enfatiza. 

Adriana Alves aponta a procura de ajuda terapêutica, a construção de relacionamentos saudáveis e o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento positivas como passos significativos no “caminho para a cura, para a construção”.

A escuta ativa da criança é mais uma estratégia referida pela profissional de saúde mental. “Estamos a trabalhar imensas coisas quando escutamos ativamente as crianças, quando as ouvimos de forma empática. Coisas tão simples para elas, mas tão fundamentais depois para a vida adulta”, acrescenta.

Identificar sinais de alerta

Para Adriana Alves, existem vários sinais de alerta que permitem identificar problemas relacionados com a saúde mental em crianças. “Se existe uma alteração drástica e repentina do comportamento da criança, por si só já é um sinal de alerta de alguma dificuldade emocional que ela possa estar a ter”. A psicóloga diz que, muitas vezes, as crianças têm dificuldade em verbalizar as dificuldades que enfrentam e “é através das queixas, dos sintomas físicos que a criança apresenta” que se consegue perceber. Dores de cabeça e de barriga são queixas muito comuns, segundo a psicóloga.

Adriana Alves explica que outro dado também comum é a “recusa escolar” e o “declínio no desempenho cognitivo”. “A saúde mental das crianças é da responsabilidade de todos nós. Cada criança é única à sua maneira e devemos identificar aquilo que são sinais de alerta e agir a tempo desses sinais de alerta. Pode fazer toda a diferença na vida delas”, complementa a psicóloga. 

A psicóloga frisa que “procurar ajuda não é sinal de fraqueza, pelo contrário. É sinal de preocupação, de amor, cuidado. E isso aplica-se a tudo na vida”.

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