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Luís Ferreira dos Santos
Maria (nome fictício) tem 66 anos e é pré-reformada. Quando em consulta o médico a questiona sobre os antecedentes patológicos normalmente é rápida e organizada, tal é o número de vezes que já os enumerou: hipertensão arterial por volta dos 45 anos, provavelmente resultado de uma menopausa precoce e histórico familiar; bronquite, que começou por ser alérgica, pois em miúda tossia a todos os odores da primavera, e que agravou por alguns anos de tabagismo, que conseguiu deixar com ajuda médica; e, por fim, a fibrilhação auricular, um tipo de arritmia cardíaca em que existem batimentos cardíacos muito irregulares.
Quando fala da arritmia, perde um certo brilho no olhar. Os primeiros episódios, pelos 50 anos, apareciam e desapareciam de forma espontânea, e eram confundidos com ansiedade. O coração descontrolava-se, batia desorganizadamente no peito, no pescoço e Maria, em pânico, ia para o hospital. Mas estes episódios eram curtos e fugazes e todos os exames eram invariável e irritantemente “normais”.
Quando começava a acreditar que as palpitações efêmeras podiam ser ansiedade, um Holter de 24 horas provou o contrário e diagnosticou fibrilhação auricular paroxística – alterações episódicas ou intermitentes do ritmo cardíaco. Recorda um irracional sentimento de felicidade por finalmente ter um diagnóstico que justificava as queixas. A primeira fase foi a medicação: vários antiarrítmicos, diferentes cardiologistas e diversas opiniões de amigos e colegas, mas sem resultados. Os episódios eram cada vez mais sistemáticos, demorados e incómodos. Começou a ter medo de viajar de avião e de estar sozinha. Sabia sempre onde estava o hospital mais próximo e o telemóvel tinha sempre bateria. Por ano, recorria 3 a 4 vezes à urgência em fibrilhação auricular. Fazia medicação endovenosa para restituir o ritmo normal (sinusal) ou um choque elétrico: o cardiologista dizia que tinha agora uma fibrilhação auricular persistente. Lamentavelmente, os relatórios dos exames ao coração já não eram imaculadamente “normais”.
Numa consulta de rotina, e pela primeira vez desde o diagnóstico há mais de 10 anos, constatou que estava em arritmia há vários meses. Tinha notado diferenças na capacidade de esforço e sentia-se muito mais cansada, mas não procurou ajuda, saturada de contrariar o que parecia o seu destino final: fibrilhação auricular permanente, irreversível, arritmia até ao fim da vida.
Em 2025, a proposta foi diferente numa consulta de Arritmologia: realizar um estudo eletrofisiológico com isolamento das veias pulmonares, com uma nova tecnologia chamada eletroporação, muito segura e eficaz, que usa campos elétricos pulsáteis de alta voltagem para eliminar o tecido responsável pela arritmia, sem o aquecer, evitando fístulas ou estenoses (estreitamentos do vaso). Um procedimento que demora pouco mais de uma hora, com anestesia geral e através de duas punções venosas na virilha. Três em cada quatro doentes ficam tratados.
Para Maria, em ritmo sinusal e sem recorrência da arritmia há mais de ano, a intervenção já permitiu a viagem a Moçambique tantas vezes adiada.
Luís Ferreira dos Santos, coordenador de Cardiologia no Hospital CUF Viseu
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