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Fragmentos de um Diário – 29 de julho de 1981

 Casas multigeracionais: uma solução contra a solidão
12.03.22
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   Não sei se vale a pena escrever! Seja o que for, poesia ou este diário. Não me satisfaz pensar numa carreira literária. Parece-me que quase toda a atividade humana é fruto da vaidade. A política desinteressa-me, embora me congratule com a vitória socialista em França. Não acredito que seja possível mudar o mundo. Melhor: o mundo vai-se modificando, e todas as razões e ações contribuem para essa mudança. Não há uma ideologia privilegiada que usurpe a verdade. No caso concreto da vitória socialista em França, não espero um mundo novo, apenas que se abram outras oportunidades, espaços novos de manobra para a esperança.
        Mas a poesia…não vou preocupar-me, não vou forçá-la, para mim a poesia será mais um modo de vida, de olhar as coisas. A poesia escrita acontecerá ou não, espontaneamente, necessariamente. Talvez escreva um poema ou dois por mês, ou por ano, o quanto baste. Meu Deus! Pois não é verdade que existe uma quantidade incrível de livros? Livros publicados, anunciados, criticados, lidos, esquecidos, livros que nem lidos são, apressada que é a leitura moderna. Por mim, rodear-me-ei de alguns livros apenas, devagar, com amor, sem pressas. O que espero da vida pode-se traduzir numa frase: quero uma existência fundada na meditação de alguns livros, no gosto da boa música, no convívio de poucos amigos, na alegria de uma afável companheira. Com calma, paz, intensidade, serenamente. Contigo, Fátima. Quando voltas e me procuras?

        31 Julho 1981

          De manhã, fiz uma pequena corrida, depois fui a Tondela comprar um pulôver para oferecer ao meu pai no seu aniversário, amanhã. No regresso, e antes do almoço, li alguns poemas de Ruy Belo de Toda a Terra. À tarde, ouvi um disco comprado ontem em Viseu, As Variações Goldberg de Bach. Depois, cheguei mesmo a penetrar no pinhal, livro na mão, à procura de uma pedra onde me sentar. No pátio, rodeado das plantas da minha mãe, o meu pai pintava. A tela no cavalete, a paleta numa das mãos ou pousada numa mesinha, e na outra o pincel. Pinta sempre que pode, o meu pai, concentrado, é o mundo dele. E sempre a natureza, sem ninguém, árvores, rios, o céu, às vezes, uma casinha, nunca muitas, e sem ninguém. A pintura é a sua poesia. O seu modo de transcender a finitude.

 Casas multigeracionais: uma solução contra a solidão

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